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Roteiro de Entrevista

O que você vai aprender

  • A estrutura de uma entrevista de fase D, do aquecimento ao fechamento.
  • Como conduzir o dono sem deixar a conversa virar bate-papo.
  • Como conduzir o operador sem que ele se sinta auditado.
  • Quais perguntas trazem dor real e quais ficam só na superfície.
  • Como registrar a entrevista em formato que vira insumo direto do relatório.

Por que isso importa

A entrevista mal conduzida é o erro mais caro da fase D. Ela é a única oportunidade em que o implementador tem a atenção do dono por 90 minutos seguidos — perdê-la atrasa o projeto em uma semana. Pesquisa G §3.3 e Pesquisa F §4.3 convergem: o vendedor-implementador que conduz a primeira conversa com método (Challenger na abertura, SPIN no discovery, Challenger no fechamento) fecha em 60% das vezes; sem método, fica em 15-20%.

O Princípio 4 do DPIA — quem opera diariamente decide — só se aplica se houver entrevista separada com o operador. Sem ela, o playbook vira fantasia do dono.

O passo a passo

1. Estrutura da entrevista com o DONO (90 minutos).

  • 0–10 min — Aquecimento e contrato. Apresentação curta (até 2 min). Pergunta de abertura larga: "Me conta a história da empresa nos seus próprios termos." Escuta longa. Define o tom: ele conta, você ouve. Ao final, "contrato da reunião": "Hoje vamos cobrir 4 pontos — onde dói mais, o que vocês já tentaram, como vocês medem hoje, e o que muda se isso for resolvido. Pode ser?"
  • 10–35 min — Dor declarada (Discovery SPIN). Quatro famílias de pergunta, nesta ordem:
  • Situação: "Quantos pedidos/atendimentos/clientes vocês processam por dia? Quem faz isso hoje? Em qual canal?"
  • Problema: "O que mais te incomoda nesse processo hoje? Onde costuma travar?"
  • Implicação: "Quando trava, o que acontece com o cliente final? Quanto tempo a equipe perde nisso? Vocês deixam de fechar venda quando isso acontece?"
  • Necessidade/recompensa: "Se isso estivesse rodando 24/7 com 90% menos erro, como sua semana mudaria? Em quanto faturamento isso representa por mês?"
  • 35–55 min — O que já tentaram. Pergunta direta: "Vocês já tentaram resolver isso antes? Com quem, com quê, quanto tempo, quanto custou, por que não funcionou?" Esta resposta mostra três coisas: maturidade do cliente, expectativa quanto ao implementador, e armadilhas de comparação. PME que já gastou R$ 30k em plataforma abandonada tem uma postura diferente de PME virgem.
  • 55–75 min — Pessoas envolvidas. "Quem opera esse processo hoje? Há quanto tempo? Como vocês veem o papel dessas pessoas se o agente entrar?" Aqui se planta a semente do reposicionamento (Princípio 3). Sem essa conversa na entrevista 1, sabotagem garantida.
  • 75–85 min — Como medem hoje. "Como vocês sabem hoje se esse processo está funcionando? Tem algum número, planilha, relatório?" 67% das PMEs respondem "não medimos" (Nautis, Pesquisa A §2.5). Resposta "não medimos" é gold: significa que o implementador vai medir e o cliente vai descobrir o número pela primeira vez.
  • 85–90 min — Fechamento. "Pelo que ouvi, o ponto mais doloroso parece ser X, com volume Y. Para confirmar isso e desenhar o projeto certo, eu preciso de A, B e C nas próximas duas semanas. O investimento dessa fase de diagnóstico é R$ Z. Faz sentido para você?" Resposta sim → assina proposta da fase D. Resposta "preciso pensar" → marca retorno em até 3 dias úteis; sem retorno em 3 dias, é não.

2. Estrutura da entrevista com o OPERADOR (45-60 minutos, separado do dono).

A entrevista do operador é estruturalmente diferente — ele não decide nada, mas conhece a verdade do processo. Regras:

  • Faça em local neutro (não na mesa dele com o dono passando atrás). Sala de reunião fechada, café da padaria da esquina, ou ambiente reservado.
  • Comece eliminando o medo de demissão. "Quero deixar claro logo no início: a decisão do que vai mudar com seu trabalho já foi conversada com o dono e a ideia é reposicionar, não substituir. Vou perguntar como você faz o que faz para o sistema novo cobrir o que precisa."
  • Perguntas-chave do operador:
  • "Me mostra o que você fez hoje de manhã, do início ao fim." (Observação dirigida.)
  • "Quando o cliente pergunta X, o que você responde? E se for o cliente Y, é diferente?" (Regras tácitas.)
  • "O que dá errado mais vezes? Por que dá errado?" (Modos de falha.)
  • "Tem cliente difícil? Como você lida com ele?" (Exceções.)
  • "Tem regra que o dono nem sabe que você usa, mas que sem ela o negócio para?" (A regra tácita crítica — Pesquisa G §"princípio 5".)
  • "O que você acha que um sistema automático nunca vai conseguir fazer aqui?" (Limite do agente.)

3. Registro da entrevista.

Caderno físico durante (não digite no notebook). Imediatamente depois, dentro de 2 horas, transcreva em ata estruturada com seções: - Citações literais marcantes (com aspas). - Dores priorizadas (3 a 5, ordenadas por volume × dor). - Regras tácitas capturadas (RT-01, RT-02, ... — cada uma com 1 linha). - Dados a coletar na próxima visita. - Próximos passos com responsável e prazo.

Esta ata vira o capítulo 1 do relatório de diagnóstico.

Exemplo aplicado — Polaris Bebidas (Joinville/SC)

Entrevista com o dono (Sr. Roberto, 47, sócio-fundador, segunda-feira 14h00, sala da diretoria).

Trecho-síntese da ata:

  • Situação: 480 pedidos/mês no WhatsApp, distribuídos entre 2 vendedores internos (Maria e João). Bling como ERP. Sem CRM. Sócio cuida do comercial externo.
  • Problema: "O João sai 18h, mas o WhatsApp toca até 21h. Eu mesmo atendo. Sábado também." Resposta lenta perde pedido para concorrente. Erro de SKU gera devolução cara.
  • Implicação: estimou perda de R$ 25k/mês em pedido não fechado por demora. Não tem número, é "sensação". Devolução por SKU errado: 8 a 12 por mês, cada custa R$ 180 em logística reversa.
  • Recompensa: se WhatsApp atender sozinho até 22h com erro abaixo de 3%, ele "para de atender no celular pessoal" e o sócio "para de cobrir o vendedor que falta".
  • Já tentou: contratou ano passado uma plataforma de chatbot por R$ 1.800/mês, ficou 4 meses, virou prateleira. Motivo: "respondia genérico, nunca conseguia montar pedido no Bling".
  • Pessoas: Maria (5 anos), João (1 ano e meio). Pergunta sobre reposicionamento: dono pensa que Maria vira "supervisora do agente + prospecção ativa em clientes B" e João sai (contrato em revisão). Aluno registra que decisão precisa estar por escrito no relatório.
  • Medição: não mede tempo de resposta nem taxa de erro. "Eu sinto."

Entrevista com a operadora (Maria, 32, quarta-feira 09h00, sala de reunião fechada, 50 min).

Regras tácitas capturadas: - RT-01: cliente do bairro Glória recebe entrega no mesmo dia mesmo se o pedido fechar depois das 15h; cliente de outros bairros, não. - RT-02: pedido do "Bar do Zé" (cliente top, 8 anos de casa) sempre fica para o Sr. Roberto fechar pessoalmente. - RT-03: quando cliente pergunta sobre "promo da semana", a Maria abre uma planilha lateral que ninguém atualiza além dela. - RT-04: se o cliente é PJ novo, ela pede CNPJ por foto antes de confirmar entrega; PF, não pede. - RT-05: cerveja Polar pilsen 600ml às vezes está cadastrada como "Pilsen 600" e às vezes como "POLAR PILS 600", o que confunde no Bling.

Modos de falha mais frequentes (na ordem que ela citou): 1. Cliente manda áudio longo descrevendo pedido; transcrever consome tempo. 2. Cliente esquece de informar bairro; pergunta-resposta toma 4 a 6 minutos a mais. 3. SKU duplicado no Bling causa lançamento errado. 4. Cliente quer "fiado" — ela não pode autorizar, manda para o dono, demora.

Limite do agente (na visão dela): "Reclamação de cliente bravo sempre vai precisar de gente."

Erros comuns

  • Falar mais que o cliente. Implementador junior fala 70% do tempo. Inverter: dono fala 70%, implementador 30%. Corrige: contar mentalmente "quem está falando mais agora".
  • Entrevistar o dono e o operador juntos. O operador filtra resposta na frente do chefe. Corrige: entrevistas separadas, sempre.
  • Pular o discovery SPIN e ir direto para a solução. "Pode usar n8n + Claude" mata a venda. Corrige: zero menção a ferramenta na entrevista.
  • Não anotar as regras tácitas. Elas viram surpresa cara no deploy. Corrige: abrir uma seção "RT-XX" no caderno desde o início da entrevista do operador.
  • Aceitar "depois eu te mando os números". Vai chegar nunca. Corrige: combinar walk-the-floor para medir você mesmo.

Checklist de saída

  • Estrutura de 6 blocos da entrevista do dono memorizada.
  • 5 a 7 perguntas-padrão do operador internalizadas.
  • Ata estruturada produzida em até 2 horas após a entrevista (caderno → digital).
  • Dores priorizadas: 3 a 5, com volume estimado em cada.
  • Regras tácitas registradas (RT-01, RT-02, ...).
  • Próximos passos da fase D combinados com prazo.

Vai além

  • metodo/templates/template-diagnostico-roteiro-entrevista.md — roteiro oficial.
  • Pesquisa F §4.3 — modelo híbrido Challenger + SPIN + Challenger.
  • Manual canônico, sub-etapa D.1 — walk-the-floor e por que entrevista no escritório não basta.
  • Exercício prático: gravar role-play (com colega de turma) de uma entrevista de fase D do dono + uma do operador. Auto-revisar com a estrutura de 6 blocos.